Somos o Clã Agent'axa da Escola Secundária D. João II em Setúbal. O nosso blogue é em homenagem ao escritor MIGUEL TORGA e ao Livro ANTOLOGIA POÉTICA.
Sexta-feira, 2 de Março de 2007
Mais Poemas de Miguel Torga

Nirvana

Paz das montanhas, meu alívio certo.

O girassol do mundo, aberto,

E o coração a vê-lo, sossegado.

Fresco e purificado,

O ar que se respira.

Os acordes da lira

Audíveis no silêncio do cenário.

A bem-aventurança sem mentira:

Asas nos pés e o céu desnecessário.

 


Animação do poema Guerra Civil

 

Guerra Civil

 

É contra mim que luto.

Não tenho outro inimigo.

O que penso,

O que sinto,

O que digo

E o que faço,

É que pede castigo

E desespera a lança no meu braço.

 

Absurda aliança

De criança

E adulto,

O que sou é um insulto

Ao que não sou;

E combato esse vulto

Que à traição me invadiu e me ocupou.

 


 

Alentejo 

A luz que te ilumina,

Terra da cor dos olhos de quem olha!

A paz que se adivinha

Na tua solidão

Que nenhuma mesquinha

Condição

Pode compreender e povoar!

O mistério da tua imensidão

Onde o tempo caminha

Sem chegar!...

 


 

Quase um poema de amor

 

Há muito tempo já não escrevo um poema

De amor.

E é o que eu sei fazer com mais delicadeza!

A nossa natureza

Lusitana

Tem essa humana

Graça

Feiticeira

De tornar de cristal

A mais sentimental

E baça

Bebedeira

 

Mas ou seja que vou envelhecendo

E ninguém me deseje apaixonado,

Ou que a antiga paixão

Me mantenha calado

O coração

Num íntimo pudor,

- Há muito tempo já que não escrevo um poema

De amor.

 


 

Ficha

 

Poeta, sim, poeta…

É o meu nome.

Um nome de baptismo

Sem padrinhos…

O nome do meu próprio nascimento…

O nome que ouvi sempre nos caminhos

Por onde me levava o sofrimento…

 

Poeta, sem mais nada.

Sem nenhum apelido.

Um nome temerário,

Que enfrenta, solitário,

A solidão.

Uma estranha mistura

De praga e de gemido à mesma altura.

O eco de uma surda vibração.

 

Poeta, como santo, ou assassino, ou rei.

Condição,

Profissão,

Identidade,

Numa palavra só, velha e sagrada,

Pela mão do destino, sem piedade,

Na minha própria carne tatuada

 

Orfeu rebelde

 

Orfeu rebelde, canto como sou:

Canto como um possesso

Que na casca do tempo, a canivete,

Gravasse a fúria de cada momento;

Canto, a ver se o meu canto compromete

A eternidade no meu sofrimento.

 

Outros, felizes, sejam rouxinóis…

Eu ergo a voz assim, num desafio:

Que o céu e a terra, pedras conjugadas

Do moinho cruel que me tritura,

Saibam que há gritos como há nortadas,

Violências famintas de ternura.

 

Bicho instintivo que adivinha a morte

No corpo dum poeta que a recusa,

Canto como que usa

Os versos em legítima defesa.

Canto, sem perguntar à Musa

Se o canto é de terror ou de beleza.

 


 

Repto

Aceito o desafio.

Que poeta se nega

A um aceno do acaso?

Tenho o prazo

Acabando,

O que vier é ganho.

Na lonjura

Da última aventura

É que a alma revela o seu tamanho.

 

Extremo Oriente da inquietação

Lá vou!

A quê, não sei,

Mas lá descobrirei

Que razão me levou.

Lá, onde tanto que me precederam,

Se perderam,

E aprenderam, na perdição

Que só é verdadeiro português

Quem, um dia, a negar a humana pequenez,

Se inventa e se procura

Nas brumas do mar largo e da loucura.

 


 

 

Romance

 

Ora pois: foi tal e qual como vos digo:

Minha Mãe, certo dia, pôs a questão assim:

-ou Ela, ou eu!

E ficou resolvido que no dia doze

Minha Mãe parisse,

E pariu!

 

Pariu e ninguém se opôs! Ninguém!

Como se fosse um feito glorioso

Parir assim alguém, tão nu, tão desgraçado!

Por mim,

Ainda disse que não.

Mas o seu Anjo da Guarda

Era forte e tenebroso…

E aquele frágil cordão

Deixou de ser o meu Pão,

O meu Vinho

E a paz eterna do meu coração

Mesquinho.

 

Deixou de ser o silêncio

Delicado e agradecido

Dos meus instintos menores…

Deixou de ser o Norte daquele lago

Onde boiava o meu corpo

Sem alegria e sem dores.

 

Deixou de ser aquela verdadeira

E sagrada ignorância do meu nome,

Que Satanás me disse, quando disse:

- Respira e come,

Respira e come,

Animal!

(A voz de Satanás já nesse tempo

Era humana e natural…)

 

Deixou de ser um mundo e foi um outro.

Foi a inocência perdida

E a minha voz acordada…

Foi a fome, a peste e a guerra.

Foi a terra

Sem mais nada.

 

Depois,

Sem dó nem piedade a vida começou…

Minha Mãe, a tremer, analisou-me o sexo

E, ao ver que eu era homem,

Corou…

 

 

 

 


 



sinto-me:

publicado por agent'axa às 15:56
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1 comentário:
De Kikas a 22 de Julho de 2007 às 18:41
A TMN está a dar…
Vi n site da TMN uma oferta de PC portátil kom a plaka banda larga móvel por 150 euros para kem vai agora para o 10º ano. 150 euros??? Inacreditável. É uma cena k tem k ver com um programa do governo chamado e-escolas. Acho k os pedidos só podem ser feitos no início das aulas mas já dá pra fazer a pré-inscrição no site da TMN k eles depois avisam. Bem fixe. Acho k é agora k vou ter 1 portátil novinho e internet sem ser no PC cá de casa. Lol E nem é preciso ser cliente da TMN. Como é PCs eles não ligam a isso. Só para não estar sempre a dizer mal estes gajos até k estão a fazer umas coisas. É k os outros tb dizem k dão mas ainda não têm lá nada… O link é este www.tmn.pt



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